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O Brasil é o único grande país sem um projeto espacial consolidado
19/6/2009

Roberto Amaral. Foto: José Vital-TEIA DIGITAL.
Depois de longos anos de espera, o Brasil caminha a passos largos para explorar comercialmente as atividades espaciais com fins pacíficos.

Isso só foi possível com a instalação da empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), criada pelos governos do Brasil e da Ucrânia, com o objetivo de lançar foguetes (Cyclone-4) para colocar satélites em órbitas terrestres a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), localizado no Maranhão. O primeiro lançamento está previsto para 2010, para qualificação do foguete e das novas instalações do centro de lançamento. “Imediatamente depois, poderemos iniciar os lançamentos comerciais e nossa perspectiva, baseada em estudo de mercado, é de que poderemos fazer seis por ano”, adianta o presidente brasileiro da companhia, Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, em entrevista ao Tele.Síntese. Amaral lamenta que o Brasil é o único grande país do mundo que não tem um projeto espacial consolidado.

A previsão da binacional é conquistar 30% do mercado potencial de lançamento de satélites mundiais, o que seria equivalente a US$ 14 bilhões até 2016. O centro de lançamento da ACS começa a ser construído no CLA, que é administrado pelo Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA), órgão ligado à Aeronáutica, e considerado o mais competitivo do mundo, devido a sua proximidade com a linha do Equador. Já o foguete Cyclone-4 está em desenvolvimento nas dependências da companhia localizadas na Ucrânia, por um custo estimado de US$ 120 milhões. A empresa faz parte do programa aeroespacial brasileiro.

Tele.Síntese – O Brasil há muito sonha em entrar nesse mercado?
Roberto Amaral – A primeira iniciativa do Brasil foi em 1971 com a criação da Política Nacional Aeroespacial, projeto do Plano Nacional Integrado. Nessa época, o país já projetava ter um sítio de lançamento, uma plataforma de lançamento, veículo lançador e satélite. Só no VLS (Veículo Lançador de Satélite) o Brasil trabalha há 30 anos.

Tele.Síntese – Por que, então, não evoluiu?
Amaral – O problema central é a falta de recursos. Além da ausência, a intermitência. É o país que menos investe e as políticas não têm frequência. Os investimentos chegaram a praticamente zero no governo Collor e foram baixíssimos os investimentos no governo FHC. Um centro de lançamento como o de Alcântara, em 30 anos, lança três foguetes. Então, qual a mão-de-obra que se pode ter? Já não se paga bem. Permanentemente os nossos engenheiros estão sendo formados pelo ITA para trabalharem na Embraer e na iniciativa privada. Vão fazer doutorado fora e ficam por lá.

Tele.Síntese – Sempre foi assim?
Amaral – Nos anos 80, o Brasil estava à frente da China, da Coréia do Sul, Japão. Hoje está atrás da Coréia do Sul, da Coréia do Norte, do Irã, do Japão, da China. O Brasil é o único grande país do mundo que não tem um projeto espacial consolidado. Apesar de ser, a rigor, o único grande país que pode ter plataforma de lançamento em vários pontos de sua costa.

Tele.Síntese – Além da falta de recursos, ainda teve o problema das terras onde Alcântara está instalado, que pertencem a quilombolas.
Amaral – Dos 70 mil hectares da península, só 14 mil ficaram, após anos de diálogos com a comunidade quilombola local. Não chegam a 10 mil pessoas nesta comunidade. Mas o espaço que ficou dá para fazer os lançamentos. O centro de lançamento exclusivo da empresa vai ficar dentro do CLA, que é uma unidade da Aeronáutica. Espaço suficiente para fazer os lançamentos.

Tele.Síntese – Quando foi criada a empresa?
Amaral – Em 2003, o Brasil firmou o tratado com a Ucrânia, que previa a instalação da empresa para gerir as ações. Em decorrência da burocracia brasileira e da falta de pessoal para elaboração de estatuto, poucas pessoas sabem fazer estatuto no Brasil. É tão difícil que demorou quase quatro anos para ficar pronto. A empresa foi criada em 2007. A sede jurídica é em Brasília e em Alcântara, no Maranhão, o sítio de lançamento. Além das fábricas na Ucrânia.

Tele.Síntese – Qual o capital da empresa?
Amaral – O capital social da empresa, com a participação dos dois países, é de U$ 105 milhões, mas nós estamos esperando um aporte para elevar o capital para U$ 375 milhões.

Tele.Síntese – E a construção da plataforma?
Amaral – A divisão das responsabilidades prevista no acordo Brasil e Ucrânia ficou da seguinte forma: a Ucrânia entra com o desenvolvimento do foguete e o Brasil, com o desenvolvimento da infraestrutura. A empresa ficará responsável pela plataforma.

Tem uma parte da infraestrutura, que é a parte tecnológica, que ficará a cargo do CLA e isso já está sendo feito. São os trabalhos de telemetria, radares, acompanhamento dos vôos, a casamata do lançamento. Agora, falta construir a estação de preparação do foguete, a estação de preparação da plataforma, a guarda dos propelentes, a guarda do satélite, que tem que ser uma sala de vácuo, que custa muito caro. São 103 obras, entre acessos, prédios e outras. A conclusão das obras será em 2010. Este mês, após o período das chuvas, começam as obras da estrada.

Tele.Síntese – Quando será o primeiro lançamento?
Amaral – Em 2010. Este primeiro lançamento é não comercial, de qualificação, só então poderemos vender o serviço. Mas há várias instituições, como o satélite Nano-Jasmine, desenvolvido pela Universidade de Tóquio, no Japão, com o objetivo de fazer um mapeamento tridimensional de posições e velocidades de estrelas. Há ainda outros que a AEB (Agência Espacial Brasileira), irá indicar. Isso significa confiança em nosso trabalho e em nosso foguete. Esse transporte é gratuito.

Tele.Síntese – Quanto tempo após o primeiro lançamento poderá ser feito outro?
Amaral– Imediatamente. Nossa perspectiva, nosso estudo de mercado aponta que poderemos fazer seis lançamentos por ano. O foguete Cyclone-4 poderá colocar em órbita terrestre um satélite de até 5,3 toneladas em baixa órbita, de até 2 mil km de distância do solo; ou um satélite de até 1,8 tonelada em órbita de transferência geoestacionária, a 36 mil km da Terra.

Tele.Síntese – Quanto pode render cada lançamento?
Amaral – Isso eu não vou falar. É segredo de mercado. Eu diria o seguinte, cada lançamento não custa menos de US$ 50 milhões e que o lucro não é menor do que três lançamentos ao ano. Em poucos anos o Brasil deixará de mandar dólares para fora com os lançamentos.

Tele.Síntese – E os outros benefícios concretos para o Brasil?
Amaral – São muitos. Toda a área de comunicações, controle da Amazônia, o controle meteorológico, das fronteiras, da bacia petrolífera; ações de telemedicina, internet, ensino a distância, entre tantos outros.

Tele.Síntese – E o foguete, como será?
Amaral – A família de foguetes Cyclone 1, 2 e 3 já fez cerca de 200 lançamentos, todos com sucesso, lançados da Rússia porque a Ucrânia não tem espaço para isso. O grande encanto do Brasil foi este, porque o sítio de lançamento daqui é considerado o mais competitivo do mundo por sua localização estratégica, a apenas 2 graus do sul do Equador, que proporciona 30% de economia de combustível.

Tele.Síntese – Como será a comercialização?
Amaral – Nós temos dois mercados teoricamente cativos – o Brasil e a Ucrânia, obviamente. 40% dos satélites lançados anualmente ou são americanos ou tem componentes americanos. Esse é o nosso primeiro alvo. Nós pretendemos disputar 30% do mercado potencial de lançamento de satélites mundiais, o que equivale a US$ 14 bilhões até 2016. Poderemos conquistar 10% desse mercado com os seis lançamentos anuais. Para ampliar a capacidade, terá que ser feita outra plataforma. E local para construir isso não falta no Brasil, no Nordeste e no Amapá.

Tele.Síntese – E como tem sido a divulgação da empresa no exterior?
Amaral – Nós temos apresentado nosso trabalho com muita dificuldade, porque não podemos comercializar ainda. Nós estivemos na Feira Mundial de Satélite na França. Mas já há manifestações de interesses de outros países, como o Canadá. O mercado espacial no mundo foi dividido em quatro áreas, uma é aqui, no hemisfério Sul. E o Brasil é o único país com condições de liderar esse mercado. Ou o Brasil monta e vende serviço aqui para todo mundo, ou cada país vai ter que alugar serviço ora da França, ora da Coréia.



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